Porandubas nº 273

O selo, coronel ? O selo ?

Abro a coluna com Jânio Quadros. Logo depois de 64, é chamado ao Rio para depor em Inquérito Policial Militar (o famigerado IPM daqueles tempos de chumbo). Mas o ex-presidente não vai. E diz por que não vai :

– Só falo no meu chão, na minha jurisdição.

O coronel vai a São Paulo ouvi-lo. À máquina, o sargento escrevente e, ao lado de Jânio, seu amigo Vicente Almeida. O coronel começa :

– Dr. Jânio Quadros, em que dia e ano o senhor nasceu ?

Jânio arregala os olhos, entorta-os e volta-se para o lado :

– Vicente, meu bem, será que ele não sabe ? Não pode ser.

O coronel não entende :

– Não sabe o quê ?

– Que perguntas têm que ser por escrito. Está na lei, coronel. Na lei.

O depoimento vai indo, por escrito. O coronel tira um maço de cigarros, oferece. Jânio pega-o na ponta dos dedos, passa de uma mão à outra :

– Vicente, meu bem, que coisa. O que é isto ? Que estranho, Vicente ! Nunca havia visto.

O coronel irrita-se :

– Por que o espanto, Dr. Jânio ? É um cigarro americano Marlboro.

– Sim, sim, meu caro coronel, sei-o, sei-o muito bem. Mas, onde está o selo ? O selo, coronel ? O selo ?

O IPM acabou.

Historinha que Jô Soares contou a Sebastião Nery.

O discurso político

Costumo bater nesta tecla. Muita gente se engana com a eficácia do discurso político. Pois bem, o discurso político é uma composição entre a semântica e a estética. O que muitos não sabem é que a eficácia do discurso depende 7% do conteúdo da expressão e 93% da comunicação não verbal. Esse é o resultado de pesquisas que se fazem sobre o tema desde 1960. E vejam só : das comunicações não verbais, 55% provêm de expressões faciais e 38% derivam de elementos paralinguísticos – voz, entonação, gestos, postura, etc. Ou seja, do que se diz, apenas pequena parcela é levada em consideração. O que não se diz, mas se vê tem muito maior importância. Portanto, senhoras e senhores que encenam peças no Estado Espetáculo, anotem esta informação.

Unidade tucana

A convenção nacional do PSDB, no final do mês, está sendo aguardada com muita expectativa. Caso de falência múltipla das (escassas) bases ou reanimação de um corpo exangue. A reanimação se daria se os tucanos chegarem à convenção unidos. Significa que as alas de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra deveriam estar representadas, em iguais proporções, no Diretório Nacional. Há muita conversação nessa direção. Mas ainda não se tem definição. A questão também resvala pelo nome do comandante do partido. Sérgio Guerra, por falta de outro nome, é o mais provável. Deverá ser reconduzido à presidência. A não ser que o santo padroeiro das causas quase perdidas faça o milagre : Fernando Henrique para presidente. Seria um nome de consenso. Mas ele aposentou as chuteiras. Não quer imitar o militante Luiz Inácio.

A marcha dos prefeitos

Os prefeitos brasileiros compareceram em massa a Brasília nesta terça-feira para um périplo nos ministérios e repartições Federais. Os municípios, queixam-se eles, estão à míngua. Se não houver uma injeção extra de recursos, terão de fechar serviços fundamentais. A 14ª Marcha dos Prefeitos objetiva alterar o chamado Pacto Federativo e tem como pauta essas reivindicações : renegociar as dívidas municipais junto à União, elevar o porcentual do Fundo de Participação dos Municípios (FPM); municipalizar os recursos do IPVA; regulamentar e aumentar o prazo para pagamento dos precatórios e participação dos municípios na partilha da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico). Os prefeitos foram recebidos pela presidente Dilma Rousseff e ficarão em Brasília até amanhã.

Ana na berlinda

A ministra Ana de Hollanda terá de rebolar para segurar-se no cargo. Demonstra muita inabilidade, ao tomar decisões que contrariam segmentos fortes da classe artística. Ganhou a intervenção de uma assessora. Indicada pelo PT. Perde força. Ultimamente, a ministra da Cultura recebeu críticas da mídia por ganhar proventos extras em expedientes dados em finais de semana no Rio de Janeiro, onde reside. Ana precisa mesmo de solidariedade. Não estaria segura no cargo, apesar do endosso do ministro Antônio Palocci. Precisa aprender a ser mais flexível.

Frase da semana

“Na última semana beatificamos um papa, casamos um príncipe, fizemos uma cruzada e matamos um mouro. No casamento do príncipe, desfilava impávido o príncipe pai, o qual, depois de matar a princesa, casou com o dragão. Bem-vindos à Idade Média!” (Enviada pelo amigo Álvaro Lopes)

Ciro no PDT ?

Cadê Ciro Gomes ? Essa é a pergunta que se fazem jornalistas e políticos. Ciro, como se sabe, cultiva um gosto pela polêmica. E também aprecia a visibilidade midiática. Por isso mesmo, é de estranhar seu “desaparecimento” da cena política. Comenta-se que estaria insatisfeito no PSB e trabalhando para ingressar no PDT. A se confirmar, deixará a sigla mais um quadro que fazia parte do grandioso sonho de Eduardo Campos, que é o de juntar a turma pós-64 e tomar as rédeas do país. Ciro faria parte desse grupo. Pelo que se constata, Eduardo Campos, capo do PSB, estaria escancarando a porteira para a saída de aliados e companheiros.

Ditadura branca ?

O mais votado senador do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, tucano de São Paulo, denuncia a “ditadura branca” que se instalou no Senado. Aloysio denuncia a enxurrada de MPs, que chega ao Senado, e é votada pela maioria sem análise e debate. Ninguém questiona. A verdade é que o rolo compressor governista é o mais pesado das últimas décadas. As matérias passam pelos plenários das duas casas parlamentares de maneira tranquila. E o pior é que o Executivo aproveita a carona de uma MP para juntar nela um punhado de matérias sem relação entre si.

Renovação no PMDB

Quem está recebendo um sopro de renovação é o PMDB, a partir de São Paulo. Como se sabe, desde que uma parcela importante de seus integrantes (Montoro, Serra, Covas) deixou a sigla para fundar o PSDB, o PMDB entrou em declínio na unidade Federativa mais poderosa, SP. O partido ficou sob o comando de Orestes Quércia desde meados da década de 80. De lá para cá, o partido foi perdendo quadros e eleições. Com a morte de Quércia, as alas se reuniram em torno de Michel Temer, que se esforça para atrair sangue novo. Hoje, quarta-feira, ingressa no partido Paulo Skaf, presidente da FIESP, ex-candidato a governador e que obteve mais de um milhão de votos na última eleição. E no final do mês, está previsto o ingresso do deputado Gabriel Chalita. Ambos, Skaf e Chalita, saem do PSB.

Voo próprio ?

O presidente interino do PMDB, senador Valdir Raupp, defende que o partido tenha voo próprio, com nomes em condição de disputar uma eleição presidencial. E arremata : “mesmo que hoje nós tenhamos uma aliança saudável com o PT, e não descartamos a possibilidade de manter essa aliança em 2014, devemos estar preparados com nomes em condições de disputar também a presidência da República”. O pensamento de quase toda a cúpula é de que o partido deve manter, em 2014, a aliança com o PT. Descarta-se qualquer possibilidade de o PMDB vir a ter candidatura própria em 2014.

Computo

Pachequinho e Chico Fulô, vereadores do PTB em BH, eram muito populares. Mas disputavam as mesmas áreas e viviam brigando. Na tribuna, Fulô falava de tuberculose e tuberculosos, seu assunto predileto :

– A cidade está cheia de tuberculosos. Não sei ao certo quantos são, mas eu computo…

Pachequinho aproveitou a deixa :

– Não é computo não, ilustre vereador. É cômputo.

– Eu sei que é cômputo. Mas, falando com vossa excelência, eu falo computo.

Nery conta que saíram nos tapas.

Serra mais cordato

José Serra, a cada dia, se convence de que não poderá ficar no limbo até 2014, quando pretende reivindicar novamente a candidatura à presidência da República. A régua da intransigência apontava, até pouco tempo, que de 0 a 100, Serra apontava para o número 90 quando lhe mostravam o caminho da prefeitura de SP em 2012. Hoje, esse índice baixou para 50%. E há quem diga que, para não ver o serrismo se apagar ante a avalanche alckmista, Serra acabará zerando a taxa de não aceitação.

136 parlamentares

O Congresso tem 136 parlamentares respondendo a 293 investigações (50 de senadores) no STF.

Pacto do PT com PMDB

Sob a orientação de Lula, o PT começa a abrir negociação com o PMDB para efetivação de parcerias em torno do pleito municipal de 2012, a partir do Estado de São Paulo. A ideia é : no município onde o PMDB tem maiores chances, o PT entrará na chapa como vice. E o PT ganha a cabeça de chapa onde for mais forte. Lula acalenta o sonho de desbancar os tucanos do centro do poder em São Paulo. O imbróglio continuará sendo a capital, onde o PMDB poderá caminhar com Gabriel Chalita, que estaria também sob o abrigo amigo de Alckmin.

Discriminação estética

Empresas até podem ter seus manuais de conduta. Mas não podem exigir de seus funcionários mudanças estéticas, como corte de barba, por exemplo. E pessoa demitida por ser considerada “feia” para os padrões estéticos da empresa tem direito a indenização. A discriminação estética passa a ser punida pelo TST.

DEM : como em lugar do quê ?

O DEM acredita que perderá um terço de seus quadros. E, para tentar renascer novamente das cinzas, aposta em uma repaginação. Promete uma nova estratégia de comunicação. Ora, comunicação é meio e não fim. Comunica-se um Quê, a substância de um partido, sua identidade. Se esse partido não possui esse Algo, não será a comunicação que fará a substituição. Um Como (comunicação) não poderá tomar o lugar do Quê (mensagem).

Bin Laden

Histórias mal contadas as que cercam o mistério da morte de Bin Laden. O Paquistão devia saber que ele estava no país. Os EUA devem ter omitido muitos detalhes do episódio : se estava desarmado, por que não foi rendido ? O plano era o de matar mesmo Bin Laden, mesmo que ele não oferecesse resistência ? Estava ele ainda no comando da Al-Qaeda ou era apenas um ícone ? O que revelam os documentos encontrados que não apenas vídeos sem grande importância ?

Blog do Serra

José Serra partiu para uma nova estratégia comunicativa : inaugurou um blog, onde passa a construir uma muralha de oposição ao governo Dilma/Lula. Aposta ele na força das redes sociais.

Residência médica

Em Dourados/MS, foi eleito um prefeito semi-analfabeto. Prometia na campanha : “prometo manter os postos de saúde abertos 24 horas, inclusive à noite”. Mais uma do prefeito. A UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) implantou o curso de medicina. Por conta das dificuldades de encontrar hospitais para a residência médica, travou-se grande discussão, na época da campanha, sobre a questão. Em um acirrado debate, perguntaram ao candidato como poderia contribuir para resolver o problema da residência médica. De pronto, respondeu :

– “Eu não pretendo dar casa para médico; eles já ganham muito e podem comprar casa. Só vou construir casa para pobre”.

“Causos” enviados por Elizabeth Dias Rode.

Conselho aos parlamentares

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos partidos. Hoje, sua atenção se volta aos parlamentares :

1. A Comissão Parlamentar de Inquérito constitui instrumento importante que os parlamentos possuem para investigar desmandos na administração pública.

2. Nos últimos tempos, suas funções têm sido deturpadas seja por interesses políticos e promocionais de deputados ou por conta de rixas partidárias, seja por interesses de grupos em apertar empresas privadas que prestam serviços ao Estado.

3. O desvirtuamento das funções das CPIs, que devem ter objeto próprio e claro, está levando a uma banalização do estatuto e sua consequente desmoralização. Além disso, gera desperdício de dinheiro público em atividades que não são de competência do Legislativo. Cuidado, senhores parlamentares, nas iniciativas para a criação de CPIs.

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A coluna Porandubas Políticas, integrante do site Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada pelo respeitado jornalista Gaudêncio Torquato, e atualizada semanalmente com as mais exclusivas informações do cenário político nacional.
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*Jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.