Porandubas nº 245

O velho Padre Anacleto

Em Uiraúna, Paraíba, terra de Luiza Erundina e de José Nêumanne, o Padre Anacleto era conhecido por sua maneira engraçada de falar trocando situações e interpretando de maneira singular o ensinamento bíblico. Era temido pelos políticos porque não tinha papas na língua. Muita gente ainda hoje o imita. Uma vez, porém, caiu na armadilha engenhosamente preparada por Neco Pistola, figura muito popular da cidade. Para irritar o padre, Neco perguntou-lhe : “padre Anacleto, o que é artrite ?” O velho cônego respondeu : “artrite é a doença dos infiéis, das pessoas que não assistem missa aos domingos, é a doença dos vagabundos, dos cafajestes, viu seu Neco ?” E Neco, todo compenetrado, passou a ler o jornal que levava na mão : “ah, agora entendo. Aqui tá dizendo que o Papa está com artrite”.

Mais um mês de campanha

José Serra contratou um guru, chamado Ravi Singh, para mudar sua campanha. Vai conseguir ? Provavelmente, não. Marketing é um sistema meio, não é um sistema fim. E como tal traduz o espírito de uma campanha, a partir de discursos, atitudes, gestos, enfim, todos os véus que cobrem um candidato. Marketing não ganha campanha. Quem ganha campanha é o candidato. Marketing ajuda a diminuir os pontos negativos de um perfil e maximizar os aspectos positivos.

“As enfermidades são os resultados não só dos nossos atos como também dos nossos pensamentos.” (Gandhi)

FHC sobre Zé

Fernando Henrique é taxativo : que bobagem chamar Serra de Zé. Serra é Serra. E ponto final. Crítica ácida ao programa tucano na TV.

Aécio como perfil

Serra era o candidato natural à presidência pelo PSDB. O mais experiente, o mais idoso, o mais denso perfil. Tinha uma reeleição tranquila ao governo de São Paulo. Mas usou o rolo compressor para esmagar outros pretendentes. Hoje, as coisas ficam mais claras. Aécio Neves poderia ser candidato mais competitivo que Serra. Primeiro, porque atrairia parcela significativa do PMDB. Segundo, porque poderia, até, ser o candidato de Lula, pela coligação governista. Aécio era o único candidato que poderia entrar no sistema cognitivo e de aceitação do presidente. Encarnaria os valores da jovialidade, modernidade. Fecharia Minas e Rio em torno dele. SP viria por atração. Depois, o nordeste.

Alívio

Aliás, Aécio respira aliviado. Serra perdia feio em Minas. E ganhava em São Paulo há um mês. Hoje, perde em Minas e também em SP. O mineiro diz : ainda bem que não serei acusado de ser o responsável pela derrota de Serra em Minas. Se ele perde mesmo em SP…

“Minha devoção à verdade empurrou-me para a política; e posso dizer, sem a mínima hesitação, e também com toda a humildade que, não entendem nada de religião aqueles que afirmam que ela nada tem a ver com a política.” (Gandhi)

Para onde vamos ?

A pergunta, agora, é : para onde vamos após as eleições ? Tentarei fazer pequenas reflexões. Primeiro, não haverá mudança brusca de rumos em caso de vitória de Dilma. O que poderá ocorrer, isso sim, são alterações parciais nos programas, tendo em vista correções de aspectos e ajuste de posições. É evidente que a candidata, se eleita, desejará imprimir sua identidade no cotidiano da administração. Ela estará, com isso, respondendo à questão : é uma sombra de Lula ou tem sombra própria ? Dilma desejará provar que tem muita personalidade.

Relação com o Congresso

O Congresso será eminentemente governista. Os cálculos iniciais dão conta de uma base na Câmara em torno de 380 parlamentares. E no Senado esta base deverá ultrapassar os 50 senadores. Fiz algumas checagens e vi que os governistas poderão ganhar entre 36 a 38 cadeiras no Senado, que se somarão aos 13 governistas que continuarão no Senado porque têm ainda 4 anos pela frente. Significa que um governo dilmista teria ainda mais folga no Congresso que a administração anterior.

Mas…

Há um “mas”. Trata-se da dúvida sobre a repartição de posições avançadas no governo. Os maiores partidos deverão botar pressão para ganhar ministérios e autarquias. O PMDB sairá muito fortalecido. O papel do vice-presidente, Michel Temer, caso eleito, será fundamental para conter os ânimos. Michel funcionará como um braço político da administração, não apenas porque conhece como ninguém os bastidores do Congresso, como pelo perfil de respeitabilidade e credibilidade. Dilma deverá lhe dar atribuições específicas nesse campo da articulação política.

Ficha-suja ?

Semana passada, comentei sobre os fichas-sujas, aventando a hipótese de que muitos iriam concorrer passando por cima. Recebi uma observação muito procedente do Diretor-Geral do TRE/RS, Dr. Antônio Augusto Portinho da Cunha.

“A propósito de sua coluna Porandubas Políticas desta quarta-feira, gostaria de fazer uma observação acerca do seguinte trecho : “Paulo Maluf foi impugnado pela Justiça Eleitoral de São Paulo. Roriz, candidato a governador do Distrito Federal, também está bloqueado pela Justiça Eleitoral. Leiamos : serão candidatos e poderão ser eleitos. Apelam para o TSE. E, se forem condenados, se valerão de recurso junto ao STF. Ou seja, as decisões finais vão para as calendas. Há, por enquanto, 486 recursos no TSE. Brasil novo, Brasil velho”. Esclareço que, segundo a legislação eleitoral atualmente em vigor, se ambos os candidatos chegarem à data da eleição na situação de inelegíveis, seus votos não serão considerados na apuração, e constarão como nulos nos respectivos boletins de urna, proclamando-se eleito o candidato regularmente registrado que tenha obtido o maior número de votos, ainda que existam recursos pendentes dos mencionados candidatos. Em outras palavras : a circunstância de poderem concorrer sob conta e risco não lhes dá direito a terem computados a seu favor os votos a eles direcionados, salvo se obtiverem decisão que lhes favoreça até a data do pleito.”

Nomes em prestígio

Outros nomes começam a surgir na moldura do prestígio, como o atual líder do governo, Cândido Vaccarezza, o deputado José Eduardo Cardozo, que poderá vir a ocupar o Ministério da Justiça, o do deputado Antônio Palocci, o do deputado estadual de São Paulo, o jornalista Rui Falcão, o deputado Henrique Alves, do PMDB-RN, que poderá vir a ocupar a presidência da Câmara dos Deputados.

E as oposições

O DEM, muito fragmentado, deverá procurar alianças e parcerias. Deverá eleger Rosalba Ciarlini, no Rio Grande do Norte, e poderá ganhar com Raimundo Colombo, em Santa Catarina, e João Alves, em Sergipe. Não é de todo improvável uma fusão com partidos do meio. Uma das maiores expressões do DEM é o prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo. O prefeito é um hábil articulador e os grandes partidos ambicionam conquistá-lo para suas bandas. O PMDB está à frente desse processo. Kassab, por outro lado, tem comando sobre uma boa parcela de parlamentares.

Jarbas e Eduardo

Eduardo Campos sempre se recorda da fragorosa derrota que Jarbas Vasconcelos imprimiu ao seu avô, Miguel Arraes, há bons anos. Neste pleito, os milhões de votos jogados na cara do avô voltarão a bater na cara de Jarbas. Será uma das maiores vitórias de um governador que se candidata à reeleição. Pernambuco deverá dar, ainda, a maior vitória eleitoral à candidata de Lula.

Tucanos ?

Se os tucanos não vão bem na campanha federal, têm boas possibilidades em alguns Estados no pleito para governos estaduais. Lidera nos dois maiores colégios eleitorais do país (Alckmin em SP e Anastasia em MG), podendo vencer em Goiás, com Marconi Perillo, no Paraná, com Beto Richa, no Piauí, com Sílvio Mendes e em Rondônia, com Expedito Júnior. Tem chances de vencer, ainda, no Amapá, com Jorge Amanajás, em Roraima, com José de Anchieta Junior.

Em tempos turvos…

Eram os turvos tempos da promulgação do AI-5, dezembro de 68, fechamento dos legislativos e as sub-CGIs nos Estados exigindo que todos os parlamentares fizessem uma declaração de bens dos dez anos anteriores. João Batista Botelho, conhecido na Assembleia paulista como João Cuiabano, preparou o seu dossiê e, quando ia enviá-lo a quem de direito, alguém adverte :

– Nobre deputado, Vossa Excelência tem de dar a eles também o seu currículo.

João Cuiabano, homem de poucas letras, mas decidido, virou uma fera :

– Isto eu não vou dar de jeito nenhum. Só conseguirão se passarem sobre meu cadáver.

Historinha do nosso amigo Sebastião Nery.

Grandes dúvidas

Na Paraíba, quem será eleito para o Senado ao lado de Cássio Cunha Lima : Efraim Morais ou Vital do Rego Filho ? De Pernambuco, quem virá : Marco Maciel ou Armando Monteiro Filho ? Do Piauí, virá Mão Santa ou Heráclito Fortes ? Do Rio de Janeiro, virá César Maia, Marcelo Crivella ou Lindberg Farias ? De São Paulo, virá Orestes Quércia ou Netinho de Paula, para fazer companhia à Marta Suplicy ? De Minas, Aécio Neves é uma certeza. Mas o segundo será Itamar ou Fernando Pimentel ?

E Skaf, hein ?

Paulo Skaf, o maior nariz da campanha, está com 2%. Sua meta é chegar aos 10%. Para se habilitar à Prefeitura em 2012.

Mercadante tem chance ?

Essa é uma pergunta que me fazem a todo momento. Resposta : se for para o segundo turno, tem muita chance. O problema é este : haverá tempo para tirar a grande diferença ? Tempo haverá. Mas a questão continua batendo na identidade e na imagem do candidato. Mercadante mostra-se sempre zangado. Quando fala algo, parece que está indignado com Deus e o mundo. Combate tudo. E bate em todos. Deveria dizer o que é bom e o que é ruim. Sem ataques genéricos. E concretizar propostas. Alckmin, por sua vez, está ganhando no vácuo. Calmo, harmônico, sorriso aberto e franco. Se Lula se entranhar em São Paulo, fará um escarcéu pró Mercadante.

E Aloysio, hein ?

Um dos mais densos e preparados perfis do atual pleito é o de Aloysio Nunes Ferreira, que foi ministro de Fernando Henrique e Chefe da Casa Civil de Serra quando era governador. Aloysio patina nos 10%. Faz boa articulação com os prefeitos de São Paulo, mas decidiu fazer uma campanha de gabinete, trancado. E, claro, usa bem a TV. Mas não se vê este candidato fazendo caminhadas, procurando voto junto às multidões. É uma pena.

Por que Costa caiu ?

Perguntam-me : qual é a explicação para a queda de Hélio Costa ? Minha resposta : a onda do vento. Quando o vento aponta para uma direção não haverá montanha capaz de detê-lo. Anastasia é o vento da vez. Simboliza o novo, encarna o amanhã. Helio Costa é um ótimo apresentador de TV e, como político, não teve muito relevo. Foi um ministro das Comunicações com pouco realce. Representa o passado. Poderá até ganhar se Lula lhe der a costa – arre, jogo de palavras – para carregá-lo. Mas ninguém segura a direção do vento.

Dirceu no Governo

Fala-se muito na volta de Zé Dirceu ao governo, caso Dilma ganhe as eleições. Nem a candidata nem Zé Dirceu seriam tão ingênuos a ponto de achar que essa volta seria natural. Zé quer continuar, claro, a ter influência. Não, porém, como vidraça. Trata-se de uma pessoa que ajudou, e muito, o PT a tomar forma e ganhar musculatura. Sabe que a mídia o coloca na lupa todos os dias. Palocci, por sua vez, poderá subir. Mesmo assim, se sujeitará aos embates midiáticos. Se passar por todos os testes, terá muito poder. Mas Dilma é intuitiva. A conferir !

Duda em fase ruim

Duda Mendonça vive seu inferno astral. Seus candidatos podem perder : em Minas, Hélio Costa deverá perder para Anastasia; Fernando Pimentel está em terceiro lugar; em São Paulo, Paulo Skaf é nanico; em Tocantins, Siqueira Campos perderá a batalha para Carlos Gaguim. Só Roseana Sarney pode ganhar. Mas levará ? O MP jogou-a na esfera dos fichas-sujas.

Conselho aos gurus do marketing

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado a todos os candidatos. Hoje, volta sua atenção aos gurus do marketing. Nesse final de campanha, procurem se inspirar em pequenas lições :

1. A lei da verdade suplanta a lei da mistificação.

2. O eleitor sabe se o candidato foi aumentado artificialmente um palmo ou dois acima de sua altura.

3. Falar com o coração é mais eficaz do que falar pela cabeça.

4. Agir com grandeza, sem golpes baixos, até o fim.

5. Prometer apenas o que poderá ser cumprido. Demonstre a viabilidade.

6. Tenha fé e não desista até o último segundo.