Porandubas nº 246

Hermenegildo

Recebo de Raimundo Junior uma historinha do Piauí que foi contada por seu pai, Raimundo Dias, ao nosso amigo Sebastião Nery com quem estudou no Seminário. Vejam o inelegível :

O candidato contra Jorcelino chamava-se Hermenegildo. O advogado de Hermenegildo, na impugnação de Jorcelino, era Benjamin Lustosa. O Dr. Benjamin ficou a audiência inteira tentando provar que Jorcelino era “inelegível”. Era “inelegível prá cá, inelegível prá lá”. Quando saíram, Jorcelino disse a seu advogado, Raimundo Dias :

– Doutor, o senhor viu como o Dr. Benjamin está louco ?

– Por quê ?

– Ele passou o tempo todo dizendo que eu era Hermenegildo.

Dilma estável

Dilma está com o pé direito no Palácio do Planalto. Em menos de 20 dias, o desafio de tirar mais de 20 pontos de diferença se apresenta como missão quase impossível para Serra. O quase é por conta do fator imponderável em política. Tudo pode acontecer. A essa altura, nem ondas fortes conseguem o naufrágio do barco da governista. Dilma tem atravessado borrascas : invasão de dados de Verônica Serra e tucanos; denúncia de lobby que teria sido feito pelo filho da ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra etc. Não houve alteração de voto nos índices. Pode ter havido refluxo em setores da classe média paulista.

CNT/Sensus

A estabilidade da candidata governista é confirmada pela última pesquisa Sensus/CNT : Dilma, 50,5% e Serra, 26,4%. Marina leva 8,9%. No levantamento anterior, os dados eram : 46% para Dilma e 28% para Serra.

Classe média paulista ?

Teria havido, sim, certo retraimento de votos por parte de setores da classe média de São Paulo. Essa inferência se deve ao fato de Mercadante não ter avançado. Mostra-se que Dilma teria perdido alguns pontinhos – entre 3 a 4 – em São Paulo, o que teria sido compensado pelo crescimento da votação no nordeste. Em Santa Catarina, Dilma, que perdia, já põe 5 pontos à frente de Serra. Em Minas Gerais, 2º maior colégio eleitoral do país, sua votação cresce. E continua a ganhar em São Paulo, terra principal do tucanato.

Estranho, hein ?

Há coisas muito estranhas nessa campanha. Por que Dilma ganha na terra mais importante dos tucanos, que é São Paulo ? Resposta : a força de Lula. Até aí tudo bem. Por que, então, Mercadante, candidato do PT, não chegou, ainda, aos 30% ? Por que não avança para alcançar o patamar histórico do petismo ? Será que o perfil do candidato o segura ?

O caso paulista

O cenário paulista vem se apresentando como um dos mais obscuros dessa eleição. O tracking, mapeamento feito diariamente, aponta para os seguintes dados : Geraldo Alckmin estaria com 45%; Mercadante com 26%. Caso Celso Russomanno consiga preservar seus 10%, teríamos 36%. Caso Paulo Skaf obtenha 3%, chega-se a 39%. Se os candidatos nanicos somarem uns 4% a conta vai para 43%. Isso é o que PT espera. Com mais dois pontos, a campanha paulista poderia entrar no segundo turno. É difícil, mas não impossível. Entre 0 a 10, a chance de Alckmin é, hoje, de 8. A não ser que…

2º turno

Se a campanha paulista seguir adiante, no segundo turno, Alckmin terá uma montanha pela frente para escalar. Mercadante passaria a ter chances. A vencedora Dilma, o patrono Lula, os governadores eleitos do PT, no primeiro turno, com influência no eleitorado nordestino – Jaques Wagner, da Bahia, e Eduardo Campos, de Pernambuco – seriam, até, convocados para fazer pressão por estas bandas. Tenho ouvido essas análises. Registro-as como pano de fundo de muita conversa de bastidores. Ouvi muita gente importante nesses últimos dias, entre tucanos, petistas, peemedebistas e democratas do DEM.

Nunes Ferreira

O quadro ao Senado, em São Paulo, também continua obscuro. Este consultor acha muito difícil que as oposições por aqui – PT e PC do B – façam os 2 senadores, deixando os tucanos a ver navios. Por isso, Aloysio Nunes Ferreira, com a renúncia de Quércia, por doença, tem chances. Há quem garanta que será o mais votado, devendo ultrapassar Marta Suplicy. Pode ser. E o Netinho de Paula, que é um candidato com votação suburbana, poderia ser ultrapassado pelos votos de Nunes Ferreira no interior do Estado. Mas há quem considere Netinho o perfil que pode ultrapassar Marta. O campo está embolado.

Tuma ajudando Tuma

O senador Romeu Tuma deverá continuar na campanha para ajudar o filho, Robson Tuma, candidato a deputado federal. O senador está convalescente. Mas não dá sinais de que vai desistir. Fez aliança branca com Nunes Ferreira. Pedem votos para a dupla.

“Las creencias son el soporte del carácter; el hombre que las posee firmes y elevadas, lo tiene excelente. Las sombras no creen.” (José Ingenieros in El Hombre Medíocre)

Tiririca

Já o Tiririca, que pede para o “abestado” (ele mesmo), deverá angariar entre 800 a 1 milhão de votos. Puxará três ou quatro parlamentares para a legenda do PR. O palhaço tem a cara de boa parte do Brasil.

Temores e dúvidas

Dilma já não provoca tanto medo nos meios produtivos. A estratégia do amedrontamento, articulada por alguns setores, começa a dar sinais de desvanecimento. Há, isso sim, receio de que alguns enclaves no entorno da ministra continuem a gestar a formulação de ideias exógenas – que apontam para o dedo do Estado – em algumas áreas, como por exemplo, nas telecomunicações. Os meios empresariais e os comandos de empresas receiam que o tom intervencionista venha a se sobrepor à ordem privativista que hoje impera. Há um grupo dentro do governo, comandado por Franklin Martins, que continua a formular a política para a área das comunicações. Comenta-se que é intenção deste grupo aprovar esta matéria até o fim do governo Lula. (O tal grupo estaria acumulando raiva de setores da mídia)

“A justiça pode ser cega, mas não devemos fazê-la paralítica.” (Mark Berg)

Mídia e ameaças

Pelo que se infere, se aparecer algum projeto, de cunho mais intervencionista, no Congresso Nacional, a tendência das casas congressuais é pela aprovação. O Parlamento se sente acossado e acuado pela mídia. Logo, não se inclinaria a atender pleitos de grupos de comunicação. Tenho ouvido o bordão por onde passo : a mídia tornou-se um partido escancarado. Faz campanha aberta para um candidato. E o faz de maneira agressiva e sem pudor. Tento, às vezes, argumentar que o papel da imprensa também é de vigiar, criticar, fiscalizar. Vejo a fogueira subindo e aqueles que se preocupam em jogar água para baixar o fogo infelizmente não o conseguem. Cabeça fria, gente, cabeça fria. O momento sugere bom senso.

“A ousadia dirigida por uma inteligência dominante é a marca do herói.” (Clausewitz in Da Guerra)

Debates

Ninguém aguenta mais ouvir debates. Essa bateria de lengalenga tem funcionado mais como estratégia de alavancagem de marketing das empresas do que efetivo instrumento para avaliação e comparação de propostas de candidatos. Os debates têm oscilado entre os índices de 4% a 5%. Pouca audiência. E mesmo o debate da Rede Globo, ao final do mês, não deverá ter muito impacto. A saturação do verbo motiva os telespectadores a desligarem os aparelhos de TV ou mudar de canal.

Novos senadores ?

Dois casos emblemáticos : Marco Maciel (DEM/PE) e César Maia (DEM/RJ). Estavam bem de saúde eleitoral. Passam mal. Em Pernambuco, o ex-presidente da CNI, deputado Armando Monteiro, deverá desalojar um senador dos mais antigos, o ex-presidente da República, Marco Maciel. No Rio de Janeiro, César Maia, um bom pensador político, está sendo ultrapassado pelo petista Lindberg Farias. De Roraima, virão Romero Jucá (PMDB) e Ângela Portela (PT). Do Amazonas, deverão vir Eduardo Braga (PMDB), Arthur Virgílio (PSDB) ou Vanessa Grazziotin (PC do B).

Paraná quente

A campanha no Paraná pega fogo nesta reta final. Osmar Dias chega perto de Beto Richa. Campanha no segundo turno daria vitória a Osmar. Tucanato divisa mais uma floresta em chamas.

RN

Um dos últimos redutos do DEM é o Rio Grande do Norte. A senadora Rosalba Ciarlini (DEM/RN) poderá levar a melhor logo no primeiro turno. Junto de um peemedebista, Garibaldi Alves, e de um democrata, José Agripino. Indo ao RN, Lula poderia puxar os nomes de Iberê Ferreira (PSB) ao governo e Vilma Faria (PSB) ao Senado. Difícil. O Rio Grande do Norte é um Estado quase imune às pressões.

O governismo

A continuidade governista poderá agregar 20 governadores no pleito de 3 de outubro. Lembra os tempos áureos do governo Sarney, quando o PMDB fez 22 dos 23 governadores. Só não elegeu o governador de Sergipe, Antonio Carlos Valadares, na época PFL.

Ficha Limpa

Faltam menos de 20 dias para as eleições. Se o STF não julgar se a lei da Ficha Limpa está em vigência para as eleições de outubro, muitos candidatos se submeterão às urnas mergulhados em dúvida. Poderão, caso eleitos, perder o mandato mais adiante.

Lula extrapola

Lula sempre extrapola. Desta feita, o presidente foi além do bom senso, ao dizer que é preciso extirpar o DEM da política brasileira. Se ele não gosta de fulano ou sicrano deste partido, não pode e não deve usar a parte pelo todo. Há gente de qualidade na sigla. E que merece respeito, a partir de um quadro como Marco Maciel, senador de Pernambuco.

“Não tem futuro a gramática da vida.” (Machado de Assis)

Conselho a todos os candidatos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos gurus do marketing. Hoje, volta sua atenção a todos os candidatos. Atenção, candidatos majoritários e proporcionais de partidos e coligações. Atentem para alguns princípios orientadores na busca do voto :

1. Procurem expressar a característica mais importante de sua identidade – o foco.

2. Não esqueçam que o eleitor deseja travar conhecimento com o personagem. Circular no meio da massa é importante.

3. Façam grande esforço para multiplicar presença em vários locais – a onipresença é um valor insuperável. Planejar eventos rápidos em lugares e cidades diferentes em um mesmo dia.