Porandubas nº 365

Abro a coluna de hoje com um dos maiores (se não o maior) perfis políticos do século XX : Winston Churchill.

Abanando minha cabeça

Winston Churchill fazia um discurso mordaz quando um aparteador, saltando do lugar para protestar, só conseguiu emitir sons abafados. Churchill observou :

– Vossa Excelência não devia deixar crescer uma indignação maior do que a que pode suportar.

Em outra ocasião, estava sentado, sacudindo a cabeça de maneira tão vigorosa e perturbadora que o orador gritou, afinal, exasperado :

– Quero lembrar ao nobre colega que estou apenas exprimindo minha própria opinião.

Ao que Churchill respondeu :

– E eu quero lembrar ao nobre orador que estou apenas abanando a minha própria cabeça.

Sou o chefe dele

O general Montgomery estava sendo homenageado, pois venceu Rommel na batalha da África, na 2ª Guerra Mundial. Discurso do General Montgomery : “Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói“. Churchill ouviu o discurso e com ciúme, retrucou : “Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele“.

Se houver

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto. Convite de Bernard Shaw para Churchill : “Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver“. Resposta de Churchill : “Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver“.

Por que não ?

Quando Churchill fez 80 anos, um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse :

– Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos.

Resposta de Churchill :

– Por que não ? Você me parece bastante saudável.

Veneno em seu chá

Bate-boca no Parlamento inglês. Aconteceu num dos discursos de Churchill em que estava uma deputada oposicionista, Lady Astor, conhecida pela chatice, que pediu um aparte (Sabia-se que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos), mas concedeu a palavra à deputada. E ela disse em alto e bom tom :

– Sr. ministro, se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá !

Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu toda a plateia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, mandou :

– Nancy, se eu fosse o seu marido, eu tomaria esse chá com prazer!

A canoa de Lula

Qual a possibilidade do ex-presidente Luiz Inácio pegar a canoa e voltar a navegar no riacho da eleição de 2014 ? Tem sido esta a mais recorrente pergunta nos corredores da política, instigada pela acentuada queda da popularidade da presidente Dilma na esteira da avalanche de manifestações que sacodem o país. A resposta está condicionada a outra questão : é possível à mandatária recuperar a avaliação que detinha junto às classes sociais, no início deste ano, a mais positiva entre os chefes de Executivo da contemporaneidade ? A resposta não é tão simples, pois agrega um conjunto de fatores, alguns imponderáveis, a começar pelo desempenho da economia nos próximos meses.

Primeira hipótese : perda de controle

A ser pífio o desempenho econômico, com efeitos na inflação, particularmente na área de alimentos, a presidente se defrontará com dois grandes riscos : a perda de controle sobre o processo político-administrativo, com a governabilidade caindo abaixo do ponto crítico; e a perda de capacidade de reverter o processo de desacumulação de força. Sob essas duas situações-limite, é razoável crer na hipótese de que o PT, para preservar seu projeto de poder, convença seu comandante-em-chefe a voltar à liça. A recíproca é verdadeira. Se a economia correr bem nos trilhos, o controle sobre o poder político será resgatado e a boa imagem reconquistada.

O caso da Bolívia

O vetor de peso de um governante, é bom lembrar, equivale ao de um balanço. A princípio, ele sobe, depois desce, mantendo-se em nível baixo por bastante tempo, até juntar forças para recuperar a posição anterior. O perigo é quando o mandatário atinge o ponto de quebra, aproximando-se do extremo do arco da estabilidade; nesse caso, não haverá condições para segurar a queda e acampar o governo em terreno seguro. Um exemplo clássico de recuperação, segundo o cientista social chileno Carlos Matus, foi o do último governo do presidente Paz Estenssoro, da Bolívia, que empreendeu forte programa de ajuste macroeconômico, sob a condução do ministro do Planejamento Sánchez de Lozada. A inflação de 30.000% ao ano destruíra as forças do presidente e de seu partido. A eficácia do programa reduziu a alta dos preços a 30% ao ano, o que deu a Lozada, em 1993, a maior votação das eleições presidenciais daquele país. Foi uma típica demonstração da teoria do balanço.

O caso brasileiro

Não há comparação, claro, com a atual situação brasileira. Nossa inflação não chega nem a dois dígitos. O exemplo serve para ilustrar a imagem da gangorra, como a que vemos. Com os preços de alimentos subindo a uma taxa anual entre 14% e 19%, conforme escreveu o economista José Roberto Mendonça de Barros (O Estado, 7/7/13), é possível prever forte pressão sobre os orçamentos familiares e, se isso ocorrer, expansão da insatisfação social. Nesse caso, o cenário de queda se manteria. João Santana, o responsável pelo marketing do governo, estipula em quatro meses o tempo para a presidente recuperar o patamar de prestígio. É possível ?

Dona da flauta dá o tom

A resposta vai depender do axioma : “quem é dono da flauta dá o tom”; a dona é a maestrina da orquestra e é chamada de economia. A lábia do marqueteiro aponta, portanto, para as cartas econômicas que serão embaralhadas para o jogo de 2014. É evidente que, a par de eventuais trunfos a serem obtidos na mesa da economia, há mais dois cinturões do governo para ajustar, sob pena de irreversível débâcle da imagem presidencial : os cinturões político e de serviços públicos. Se fechar a torneira para as demandas políticas, a presidente ficará sob ameaça de mais derrotas no Parlamento. Caso tampe os ouvidos ao forte clamor das turbas, arrisca-se a cair no despenhadeiro da rejeição social. Hoje, mostra-se atenta à onda popular, abrindo um conjunto de iniciativas, como a proposição da reforma política e implantação de programas, alguns polêmicos, como importação de médicos e extensão dos cursos de medicina, de 6 para 8 anos.

O sol é novo é cada dia

Caso não consiga ajustar os cinturões da governança aos corpos econômico, político e de serviços sociais, a candidata à reeleição poderá ser induzida a ceder o lugar ao antecessor, plano B com que trabalha parcela da máquina petista. Daí a inevitável pergunta : a volta de Lula seria a solução para o PT prolongar seu projeto de poder ? O horizonte é nebuloso. Mas algumas hipóteses são razoáveis. A primeira é de que voltar é uma forma de retroceder. O percurso liderado pela primeira mulher presidente seria interrompido para propiciar o reingresso em cena do perfil maior do PT. O que não evitaria a sensação de insucesso da estratégia petista. Outra observação : nem o Brasil nem Luiz Inácio são os mesmos de ontem, o que nos remete à máxima de Heráclito de Éfeso : “um homem não passa duas vezes no mesmo rio”. As águas sempre se renovam. O sol é novo a cada dia.

Os burros n’água

As duas vezes em que Lula atravessou as águas nacionais formaram e fecharam um ciclo, caracterizado pelo aprofundamento das coalizões partidárias (que resultaram no mensalão), por um compadrio patrimonialista entre sindicalismo e Estado, pelo acesso das massas à mesa do consumo e por um estilo populista de governar, que multiplicou contatos com as massas. Hoje, Luiz Inácio se agasalha no conforto de palestras internacionais, sob o manto do carisma e do perfil com maior cacife eleitoral. E que tem de cuidar bem da saúde, mesmo exibindo passaporte de seus médicos para voltar a frequentar palanques. Navegar no Brasil de hoje é, para os políticos, um exercício de reaprendizagem. A pororoca que se espraia pelo país exige um mergulho profundo nas águas que inundam ruas, becos e vielas. Lula é um navegante. Mas o rio está mudando o curso. Pegar uma canoa em direção ao amanhã, apenas com um “baú recheado de coisas de ontem”, pode dar com os burros n’água.

Lorotas

A internet tem sido pródiga na propagação de versões, contraversões, mentirinhas e mentironas. A mais recente : Lula teria voltado ao Sírio-Libanês para cuidar da recidiva, o câncer que teria voltado. Lorota das grandes. Lula está lépido e fagueiro. Forte e fazendo articulação de bastidor. Este consultor tem conversado com pessoas que conversam constantemente com Lula.

Lula, o analista

Lula, como analista político, é um otimista. Em sua coluna no New York Times, publicada ontem, explica que as manifestações que ocorrem no país não rejeitam a política. Ao contrário, vão incentivar os jovens a participar da atividade política. Sobre a motivação, o ex-presidente argumenta que os protestos foram motivados por pessoas que querem serviços públicos de melhor qualidade e instituições políticas mais transparentes.

Imagem de Dilma

A imagem da presidente Dilma continua descendo a ladeira da fama. As pesquisas atestam a queda de popularidade. A mais recente é da CNT/MDA : avaliação positiva do governo da presidente Dilma caiu de 54,2% para 31,3%, divulgada ontem. O levantamento foi feito entre os dias 7 e 10 de julho, após a onda de protestos ocorrida no país. Uma conhecida que acaba de chegar dos sertões nordestinos, mais precisamente de Jequié, na BA, conta que a presidente é xingada todo tempo pelos baianos. A causa : aumento dos alimentos. Menos dinheiro no bolso para suprir as barrigas. Operação BO+BA+CO+CA está desalinhada : Bolso, Barriga, Coração, Cabeça.

Pacto com empresários

Na agenda da presidente da República, estão previstos contatos com empresários de peso. O objetivo é o de tentar um pacto com empresariado nesse momento de grandes interrogações na economia. A questão é : será que o momento ainda é adequado ?

Um veto indigesto

A presidente Dilma Rousseff, que já não anda bem com os eleitores (a intenção de voto na ocupante do Planalto caiu 19,4 pontos percentuais desde a última pesquisa), pode comprar uma briga feia com todos os empresários do país : basta vetar o projeto que elimina a multa de 10% sobre o FGTS, aprovada pelo Congresso. De uma só vez a presidente pode piorar o ambiente de negócios para as empresas e tornar mais nebuloso o cenário do mercado de trabalho. Emprego é o que ajuda Dilma a se manter ainda na dianteira, hoje com 33,4% da intenção de votos, contra 20,7% de Marina Silva (Rede Sustentabilidade), 15,2% do senador Aécio Neves (PSDB/MG) e 7,4% do governador Eduardo Campos (PSB/PE).

Preocupação à vista

A ABIN – Agência Brasileira de Inteligência – está preocupada com eventuais manifestações por ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil, a partir da próxima segunda feira. A Agência trabalha com a perspectiva de tendência “máxima” de manifestações durante o evento, que será realizado no Rio. As ações de “grupos de pressão” são as únicas que estão em nível vermelho, a escala máxima de possibilidade de incidentes. Na lista da ABIN, há controles sobre : “organizações terroristas”, “crime organizado”, “criminalidade comum”, “incidentes de trânsito”, entre outros.

Caiu do telhado

Todos os governantes sofrem os impactos das manifestações que assolam o país. Mas quem mesmo sofre muito com a queda do telhado é o governador Sergio Cabral, do Rio. Grupos de manifestantes praticamente acamparam em frente à casa do governador. Há quem diga que Pezão não subirá a montanha eleitoral de 2014. Ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil, a partir da próxima segunda-feira. E os sonhos do governador Cabral de entrar em chapa majoritária Federal se desvanecem.

Reforma política

Foi bem recebida a nomeação do deputado Cândido Vaccarezza para coordenar o Grupo de Trabalho que vai produzir um projeto de reforma política. Vaccarezza tem perfil de bom mediador. Sabe ouvir e ponderar. Diferente do deputado Henrique Fontana, do PT do RS, que prepara há dois anos um projeto nessa área e só construiu muralhas entre grupos e partidos. A escolha de Vaccarezza deve-se ao presidente da Câmara, Henrique Alves.

A era Eike

Fecha-se também uma Era plasmada por Castelos de Areia e Empresas construídas com papel. A Era Eike.

Conselho aos líderes e dirigentes

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos pré-candidatos no pleito de 2014. Hoje, dirige um conselho aos lideres e dirigentes :

1. Procurem entender profundamente as motivações que ensejaram e continuarão a ensejar as manifestações de rua por todo o território.

2. O Brasil fecha o ciclo do Bolsa-Barriga e inaugura o ciclo do Bolsa-Cabeça. Os novos horizontes abrirão novas formas de atuação na frente política e terão impacto sobre os setores produtivos.

3. Slogan da nova era : “Verás que um Filho Teu não foge à Luta”. Conceito-mor : autogestão técnica. A pessoa sabe o que quer, para onde ir e também sabe escolher os meios para alcançar seus fins. Arquiva-se o axioma : “Maria vai com as outras”.