Porandubas nº445

Que barbeirinho infeliz… !

Djalma Marinho, deputado estadual de 1947 a 1950 e Federal de 1951 a 1981, era compadre do barbeiro de Nova Cruz, sua cidade natal. Um dia, cortando o cabelo, ouviu o apelo :

– Compadre, vi nos jornais que você vai para Roma visitar o papa. Ele é meu ídolo. Olhe aqui a foto dele. Vou lhe fazer um pedido : peça para ele autografar essa foto e escrever uma dedicatória à minha família. Não esqueça. Você é meu maior amigo e não vai me decepcionar.

(Foto do Papa com dedicatória era, outrora, a maior honra que uma família nordestina poderia exibir na parede da sala de visitas.) O deputado viajou e encaixou o pedido tresloucado na mala do esquecimento. O tempo passa. Dois meses depois, ao voltar a Nova Cruz e ao sentar na cadeira da barbearia, recebeu a cobrança :

– E aí, compadre, o senhor foi a Roma ? Viu o Papa ? E minha foto com a assinatura dele ? E a dedicatória ?

– Pois é, compadre. Vi o Papa. Só me lembrei de você. Falei de sua família, de seu trabalho, da admiração que você tem por Sua Santidade. E ele me olhava com aquele olhar de santo. Quando me ajoelhei para tomar a benção, ele olhou para minha cabeça exatamente no momento em que me curvei para beijar o anel e, compadre, me deixou sem ação para pedir a assinatura na foto. Me perguntou muito contrariado : “Senhor deputado, que barbeirinho infeliz fez esse estrago em sua cabeça ?” Você há de compreender, não tive nenhuma condição de fazer o pedido. Não queria comprometer o compadre. Desta vez, olhe bem, compadre, muito cuidado no corte, viu ?

O dilema do PT

O Partido dos Trabalhadores padece de mais grave crise de sua história. Sua imagem está seriamente corroída pelos episódios do mensalão e da Operação Lava Jato. E, nesse momento, parte do PT renega o governo que, todo tempo, diz que é seu. Três senadores petistas resistem em aprovar as medidas do pacote fiscal proposto pelo governo para sair da crise : Lindbergh Faria, do RJ, Paulo Paim, do RS, e Walter Pinheiro, da BA. Dizem que tem dedo de Lula na influência sobre Lindbergh. Há um grupo, liderado por Lula, que se esforça para o PT voltar às origens e reconquistar os movimentos sociais. Como fazer isso, agora ? De um lado, defende o governo, “que é seu”, de outro, critica o governo, com sua política econômica “neoliberal”.

O que está por trás

Na verdade, o PT sente que o poder político se estiola em suas mãos, começa a derreter. Seus teóricos alertam o partido para a necessidade urgente e premente de voltar ao seio dos movimentos sociais. Como fazer a omelete sem quebrar ovos ? Como estender os braços sociais, expandir os programas de assistência num ciclo de carência financeira ? É impossível a qualquer governo ser generoso com as massas sem fazer nenhum sacrifício para arrumar a economia. A era do acesso fácil ao consumo e ao crédito passou. Hoje, aquela política mostra seus efeitos. A dureza demorou, mas chegou. O PT pensa em se eternizar no poder. Quer os louros de grandes vitórias. Em época de escassez. Um contrassenso.

Qual o rumo ?

O PT deverá passar um bom tempo no fundo do poço, amargando os erros de percurso. Se voltar ao passado, vai ter que enveredar pela arena da luta de classes. Voltará às margens radicais, perdendo núcleos que ganhou nos espaços da esquerda para o centro. O PT precisa ter a consciência das tendências políticas do mundo contemporâneo, sobretudo, da inclinação para uma visão social-democrata. Partidos que querem ser grandes não terão vez se optarem por se afastar dos centros e de suas laterais, à esquerda e à direita. Querer dividir o país em duas bandas – “nós e eles” – como o PT tem feito é um erro de estratégia política. Instila ódios, indignação, repulsa. Lula, o guru, e seus discípulos recorrem constantemente a esse ultrapassado discurso.

A dinâmica social

Partidos políticos precisam incorporar o espírito do tempo, o clima social, os inputs da economia e a temperatura dos ciclos. A sociedade avança, expande seus níveis de conscientização, amplia os raios de ação, cresce no sentido da racionalidade. O convívio com tecnologias cada vez mais futuristas, a interação entre grupos e comunidades por meio de redes eletrônicas, o sentimento de pertinência em um mundo cada vez mais estreito contribuem para a aquisição de uma nova cultura, de novas formas de pensamento.

Socialismo clássico ?

Não é possível defender o escopo do socialismo clássico sem ver nisso uma taxa de coisa ultrapassada. Os partidos de massa se foram na névoa do tempo. Hoje, os partidos precisam agregar os novos grupamentos sociais. As classes A, B, C, D e E são povoadas de comunidades que pensam de maneira diferente. As categorias especializadas tomam lugar das massas amalgamadas.

O concriz do senador

Quando senador pelo Rio Grande do Norte, Agenor Maria (sindicalista rural, falecido em 1997), visitando o município de Grossos, foi interpelado pelo prefeito Raimundo Pereira.

– Estamos precisando de uma escola para a comunidade de Pernambuquinho.

De pronto, Agenor garantiu-lhe apoio à proposição. Semanas depois, um telegrama traz a boa-nova ao prefeito.

– Escola está assegurada. Mande-me o “croqui” (esboço, rascunho da obra).

Tomado pelo espírito de gratidão, Raimundo visita Agenor para agradecer o empenho, carregando uma gaiola à mão. Diante do senador, que estranha o acessório, Raimundo vai logo se explicando.

– Eu não peguei um concriz como o senhor pediu, mas trouxe esse sabiá. O bichinho canta que é uma beleza !

(Historinha narrada em Só Rindo 2, por Carlos Santos)

As visões se clareando

Opiniões colhidas e ouvidas aqui a ali mostram certo grau de descontração na economia no terceiro trimestre do ano. O esforço de Joaquim Levy dará resultados, dizem importantes porta-vozes de setores produtivos.

O espectro ideológico

A formação partidária do amanhã tem condições de abrigar dois grandes partidos de centro-esquerda, dois grandes partidos de centro-direita, dois nas pontas radicais (à esquerda e à direita) e não mais que três a quatro médios e pequenos rastreando os grandes.

Limites do bom senso

Os partidos de oposição começam a usar o bom senso. Recuam na ideia de pedir o impeachment da presidente Dilma. Fazem bem. Não há motivo para tanto, pelo menos até hoje. Crime de responsabilidade por atos realizados no governo anterior já é tese vencida. A maior parte dos juristas não aceita a hipótese. Urge acompanhar atentamente o desdobramento da Operação Lava Jato. E só mais adiante tomar decisão sobre rumos a seguir.

Reforma política

Os deputados são pragmáticos. Não votarão matérias que possam, mais adiante, contrariar seus interesses. Por essa razão, não se pode apostar em uma reforma política gorda, densa. Será aprovada uma reforma magra, com um ou outro ponto.

Congresso

Hoje pela manhã, às 9 horas, estarei palestrando no 18º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa, promovido por Mega Brasil no Centro de Convenção Rebouças. Discorrerei sobre A Imagem em Tempos de Globalização Corporativa – Defesa da Reputação.

Déficit e investimento direto

O déficit em conta corrente chegou a US$ 6,9 bilhões em abril, de acordo com Banco Central. O resultado levou o saldo a acumular déficit de US$ 100,2 bilhões nos últimos doze meses, o equivalente a 4,53% do PIB. O valor já considera a nova metodologia de computação da série, divulgada no mês passado. Já o Investimento Direto (IDP) registrou entrada líquida de US$ 5,8 bilhões no mês passado, comparado à entrada de US$ 4,3 bilhões em março. Com isso, nos últimos 12 meses acumulou entrada de US$ 86,1 bilhões, o equivalente a 3,89% do PIB. As entradas de renda fixa e de ações, por sua vez, foram positivas em US$ 3,5 milhões e US$ 3,8 bilhões, respectivamente. Isso demonstra que, de fato, os fluxos de capitais estrangeiros para o Brasil continuam robustos, apesar da forte volatilidade nos mercados brasileiros no início deste ano. (Dados do Departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco).

Fusão PTB/DEM

Está muito difícil a fusão do DEM com o PTB. A cúpula do PTB quer, mas as bases, não. É o que se infere das posições expressas por líderes.

Delações e receios

Alguns quadros da política não têm conseguido dormir, ansiosos em ouvir as delações de alguns empresários. Há quem aposte que não haverá novidades. Mas há quem ache que as surpresas estão por vir.

15 partidos

O ex-prefeito e atual vereador do RJ, César Maia, acha que “a reforma política que virá tenderá a reduzir esses 28 partidos à metade, uns 15, na eleição de 2018. Nunca as maquininhas de calcular dos parlamentares foram tão usadas, com seus assessores fazendo todo tipo de cálculos, de forma a avaliar quem ganhará ou perderá em cada hipótese. Sendo assim, com a redução das representações partidárias à metade de hoje na Câmara de Deputados, os partidos de representação de 3% ou menos ou desaparecem ou se tornam irrelevantes. Essa é a razão de fundo para que as fusões partidárias sejam estimuladas e venham ao centro do palco para serem efetivadas, discutidas ou mesmo especuladas. Todos precisam estar no grupo intermediário de 7% a 10%, de forma a que sejam relevantes mesmo num efetivo presidencialismo de coalizão.”

Rima

Fecho a Coluna com um grande abraço. Lacerda, governador da Guanabara, candidato à presidência da República, foi a Montes Claros, no norte de Minas, (onde Aécio Neves divisa um pedaço do Nordeste a partir de sua terra mineira). A cidade amanheceu com os muros pichados : “Lacerda rima com m…”. No comício, à noite, Lacerda acabou o discurso assim :

– Aos meus amigos, deixo um grande abraço. Aos meus adversários, a rima.