TRATE SEU CORAÇÃO COM RESPEITO, SEM SIMPATIAS – por AMÉRICO TÂNGARI JR.

O prezado leitor deve ouvir frases como essas com frequência:

  • É bobagem, passa logo: esse remedinho cura tudo!
  • Toma isso, é tiro e queda!
  • Tenho uma receita que não falha, é da minha avó!
  • Tomei uma vez, fiquei novo de novo. Um milagre!
  • Conheço uma simpatia…
  • Experimente e me diga: não tem erro!

Faz parte da cultura do brasileiro se automedicar ou indicar receitas diante de sintomas que imagina conhecer desde criancinha. Ele se sente, antes de tudo, solidário – ou então é um hipocondríaco de carteirinha. Não só conhece os sintomas, como já entra na primeira farmácia para bisbilhotar a prateleira.

O que não sabe é que pode estar entrando num labirinto, em caminhos muito perigosos para a saúde, que podem até encurtar a sua vida. Exemplos de alguns sintomas que população trata com incrível intimidade:

Dor no ombro é torcicolo na certa – basta virar a cabeça e o pescoço trava. Uma pomadinha resolve, mas as pessoas aconselham a trocar o travesseiro. Essa dor também pode ser causada por uma bursite – e dá-lhe inflamatórios, compressas. Benzedeira, dizem, apressa a cura.

Dor nas costas: imediatamente associada à coluna. As pessoas então lamentam a má postura, jeito de caminhar, de se sentar, falta de exercícios. Prometem procurar um ortopedista, mas vão levando.

Dor na mandíbula: o ato de mastigar envolve vários grupos musculares, ligamentos, articulações, ossos e a arcada dentária. Tudo deve funcionar de forma harmônica; se há desequilíbrio nesta região – ao morder, bocejar, abrir muito a boca -, a dor é irradiada para qualquer ponto da face, ouvido, pescoço ou nuca, com frequentes dores de cabeça. O dentista resolve, dizem: isso é verdade, mas nem sempre.

Dor no estômago: de tão comum, nem chama mais a atenção. Pessoas com azia constante já andam com pastilhas no bolso. Se piorar, direto no Omeprazol. Só pode ser gastrite, úlcera, produtos do estresse do dia a dia…

Dor no braço esquerdo é velha conhecida dos brasileiros: direto para o hospital, pois pode ser indicação de infarto.

O que o brasileiro talvez não saiba é que todas as dores descritas acima podem ser também sinais graves de anomalias no coração. Qualquer incômodo do tórax para cima merece uma séria investigação. Portanto, antes de se automedicar ou indicar algo a parente ou amigo, recomende uma visita ao cardiologista.

Pode ser bem mais grave do que se imagina à primeira vista. E vale lembrar o caso de um brasileiro famoso, o jornalista e escritor Paulo Francis: tratava uma bursite, quando morreu de infarto. Estava com as artérias tomadas por placas.

Esse é um exemplo, mas são milhares de casos parecidos, pois nem todas as pessoas tratam bem de seu coração. Essa máquina vital para nossas vidas costuma ser maltratada desde a infância; sofre em silêncio, até que um dia explode. Não espere chegar esse momento.

Manter o coração saudável é uma tarefa que exige dedicação em tempo integral. Não é tão difícil mantê-lo em bom estado de funcionamento, desde que se tome precauções. Por exemplo:

Genética – Caso alguém da família tenha histórico de doenças cardíacas, procure um médico para um check-up – é fundamental. Alguns exames conseguem mensurar como está a saúde cardíaca e até mesmo prevenir um evento cardiovascular, que pode ser fatal.

Diabetes – atinge cerca de 10% da população brasileira. É um dos fatores de risco cardiovascular, pois ajuda a formar placas de gordura nos vasos, o que resulta em bloqueio que leva ao infarto. É preciso uma dieta saudável e tomar os medicamentos receitados pelo médico para controlar a doença.

Hipertensão arterial – pressão alta é silenciosa, praticamente sem sintomas. Com o tempo, lesa os rins; o coração faz muito esforço para trabalhar, hipertrofiando e, posteriormente, dilatando. Aferir a pressão com frequência, controlar o sódio e tomar os medicamentos prescritos por um cardiologista mantém a pressão dentro do padrão. Em alguns casos de pressão alta, há palpitação, dor de cabeça, cansaço e tontura.

Tabagismo – quem fuma pode tirar alguns anos da própria vida por algo evitável. O cigarro aumenta a chance de infarto e é a uma das principais causas de morte em todo o planeta. Cerca de 20% delas ocorrem por eventos cardiovasculares. Os fumantes passivos também podem desenvolver doenças cardíacas.

Colesterol Alto – quando há muita gordura no sangue, pode entupir as artérias, uma das causas principais da aterosclerose, que leva ao infarto. Ter uma dieta balanceada, sem excesso de gorduras saturadas e zero de gorduras trans, ajuda o corpo a se defender. Atividade física ajuda a aumentar o colesterol bom, responsável por limpar a gordura ruim do corpo.

Estresse – os hormônios do estresse – adrenalina e cortisol – também lesam o corpo silenciosamente. Um dos problemas: aumento da pressão arterial, o que acarreta problemas cardíacos e renais. Procurar atividades relaxantes e controlar mais as próprias emoções ajudam a reduzir o estresse. Além disso, dormir bem é importante para a redução do que pode ser chamado de mal do século.

Má alimentação – a base de um bom funcionamento do organismo vem da comida. Alimentar-se saudavelmente, com um cardápio que inclua frutas, verduras, legumes e grãos, fornece o que o organismo precisa para manter todas as funções em perfeita ordem. Excesso e consumo frequente de muito sal, frituras e alimentos muito gordurosos não combinam com um coração saudável.

Sedentarismo – cada vez menos se faz exercícios físicos, principalmente em grandes cidades. No entanto, a atividade física pode reduzir colesterol, diminuir a pressão arterial, aumentar a capacidade cardiorrespiratória, trazer bem-estar, reduzir o estresse etc. Há inúmeras boas razões para se mexer mais. Mas quem pensa em praticar esportes ou fazer academia, precisa antes consultar um cardiologista para avaliar a condição antes do esforço.

Ao final das contas, nada como prevenir – este é o melhor dos remédios para toda a vida.

 

Américo Tângari Jr. é médico cardiologista do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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