OS TRÊS CINTURÕES DO GOVERNO

Carlus Mattus, cientista social chileno, em seu clássico Estratégias Políticas, é enfático: “não é possível combinar sacrifícios econômicos e recessão transitória com crescimento econômico, aumento do emprego e justiça social”. Esse é o dilema do governo diante da greve dos caminhoneiros, sob empuxo de empresários e simpatia da população.

O dilema é o de equilibrar os três cinturões que balizam a administração pública: o econômico, o social e o político. O equilíbrio entre eles é responsável pela fortaleza ou fragilidade de ações governamentais. O sucesso de um repercute no outro. Tomemos a economia: se gerar resultados e resgatar a confiança dos setores produtivos, a frente política olha de maneira simpática para a gestão, com consequente aprovação de seus projetos.

A linha do governo foi bem-sucedida nos primeiros meses, mas a política de preços dos combustíveis, elogiada nos primeiros momentos, é hoje questionada. Dolarizar o preço pela onda do mercado internacional levou a até duas marcações diárias na bomba. O impacto no bolso de caminhoneiros (autônomos) é simplesmente jogado no colo de um governo que, ao contrário do governo Dilma, não represa preços. O que teria afundado a Petrobras.

Mas a fatura veio agora. A nova política de preços – com as concessões feitas pelo governo – motiva outras áreas a fazer suas exigências. Há um horizonte sombrio, pois os cofres do Tesouro não suportarão estender benefícios a torto e a direito. Portanto, o cinturão econômico começa a afrouxar.

Já a área social deseja aumentar o seu PNBF (Produto Nacional Bruto da Felicidade), a partir do bolso com recursos para enfrentar o cotidiano. Se a locomotiva econômica enfraquece, a ruptura social é o desenho que se distingue à nossa frente. O fato é que a administração não tem tido a capacidade de “fazer com que as coisas aconteçam”, como ensina Bertrand Russel. A rigidez nas contas públicas, meta do governo, começa a perder prestígio na pororoca que carrega as carências e as esperanças do povo.

As elogiadas iniciativas governamentais – teto de gastos, reformas trabalhista e educacional, terceirização, recuperação da Petrobrás e do Banco do Brasil, resgate da credibilidade do país – são de certa forma canibalizadas pelas perdas que essa greve provoca no seio social. E se outros movimentos surgirem nessa onda, de onde o governo vai tirar tantos recursos?

Nesse ponto, surge o terceiro cinturão, o político. Que também está frouxo e esgarçado. Em ano eleitoral, os representantes adotam postura de resguardo, voltando-se até contra o governo de imagem impopular. Por isso, não se pode contar com o cinturão político para aprovar medidas fundamentais para a paz social.  Partidos, grupos, operadores de estruturas expandem a dissonância interna. Não é improvável termos o pleito de outubro sob o agigantamento popular nas ruas. O momento exige bom senso.

 

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação Twitter @gaudtorquato

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