Porandubas Políticas 586

Abro a coluna com o mestre Inrique.

I.N.R.I. – Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum

Conta Leonardo Mota que o mestre Henrique era reputado marceneiro nos sertões de Sergipe. Sua especialidade estava nas camas francesas à Luís Quinze. Quando o freguês achava que o leito era baixo, recebia a explicação de que a cama era francesa, mas era à Luís Quatorze; se havia queixa da excessiva altura, ficava sabendo que aquilo era cama francesa à Luís Dezesseis. O mestre Henrique pôs toda a sua ciência no Cruzeiro do patamar da igreja de Aquidabã. No topo do sagrado madeiro, o vigário da freguesia fizera o mestre Henrique colocar uma tabuinha com as letras I.N.R.I., iniciais de Jesus Nazareno Rei dos Judeus, a irônica inscrição latina de que a ruindade de Pilatos se lembrara na ignominiosa sentença de morte do filho de Deus. Decorrido algum tempo, um sertanejo sergipano, intrigado com a significação daquelas quatro letras, perguntou a um seu conhecido:

– O que é que quererá dizer aquele negócio de INRI, que tem escrito em riba do Cruzeiro?

– Você não sabe não? Ali falta é o Q-U-E. Esse QUE não cabeu na tabuinha: aquilo é a assinatura de quem fez, que foi o mestre INRIque…

Sola de sapato

Haja sola de sapato. Os candidatos estão nas ruas, cada qual fazendo percursos que incluem passagens por feiras livres, eventos tradicionais, como a festa do Peão de Barretos, selfies com eleitores e muita promessa. Quem está fazendo o maior barulho é mesmo Bolsonaro. Na arena de Barretos, passeou a cavalo, chapéu típico do rodeio, acenos à multidão e os verbos de ordem de quem garante que vai arrumar a bagunça. E tem muita gente que acredita nessa lorota.

Discurso conservador

O fato é que eleitores antes simpáticos a Geraldo Alckmin gostam do discurso conservador do candidato do PSL à presidência. Isso explica, em parte, a migração dos votos de Alckmin para o capitão que lidera as pesquisas em cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio. Esse eleitorado acha que Bolsonaro representa melhor o sentimento anti-PT.

Olhando para o bolso

Os outros candidatos estão prometendo aliviar o bolso do eleitorado. Ciro, com sua promessa de retirar da lista do SPC quem estiver encrencado; Marina, prometendo amparar os aposentados com benefícios (não diz como); Alckmin, discorrendo sobre o acesso ao crédito para micro-empreendedores; Meirelles, ancorando-se na ideia de que é o homem providencial para tirar o Brasil da crise (“Chame o Meirelles”); Álvaro Dias, dizendo que não vai aceitar indicações políticas para cargos na administração Federal.

Sinais da semana

Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, ao que se depreende das últimas pesquisas, estão estacionados em seus patamares abaixo de dois dígitos. Ciro aparecia como forte herdeiro dos votos de Lula. Marina é quem mais se beneficia. Haddad é a expectativa de poder do PT. Corre o Nordeste tentando falar o lulês, a linguagem que o povo entende, a partir do uso de metáforas e palavras simples. Só se atrapalhou em João Pessoa/PB, quando disse ter ficado encantado com o “pilotis” do clube Cabo Branco. O povão boiou. Que diabo é isso? Uma coisa parece certa: Haddad deve herdar boa fatia dos votos de Lula. Já não é descartável para o 2º turno. E, nas apostas que começam a ser feitas, aparece no primeiro cenário disputando com Bolsonaro.

Haddad versus Bolsonaro

Pois bem, as conversas começam a tomar forma e posição dos interlocutores. Nos setores médios, onde estariam concentrados os eleitores de Geraldo Alckmin, já é comum ouvir-se: “se o 2º turno abrigar Haddad e Bolsonaro, não terei opção; votarei no petista”. A polarização se acende. Os bolsonarianos, por sua vez, apostam nas posições extremadas do capitão e abrem locução feroz nas redes sociais. A fogueira está subindo. A recíproca é verdadeira. Grupos da classe média C, proprietários rurais, pequenos comerciantes também acentuam: “se Haddad chegar ao 2º turno contra Bolsonaro, acompanharão o militar”.

As abordagens de campanha

A partir de 31 de agosto, estaremos submetidos, durante 35 dias, a uma bateria de mensagens de cunho eleitoral, que se desdobrarão em três vértices: a) a glorificação de candidatos, com ênfase no potencial do “EU” e slogans de arremate: eu fiz, eu faço, eu farei; b) a demonização do ELE, que tentará desconstruir adversários, tendo como linha de argumentação o despreparo, a ameaça ideológica/retrocesso que ele representa; c) a administração de altas taxas de rejeição, quando se verá o esforço quase desesperado de candidatos para reverter posição aferida por pesquisas e garantida pela assertiva: neste fulano não voto de jeito nenhum. Qual será a mais eficaz?

Desconstrução

Há casos em que a estratégia de desconstrução do perfil do adversário dá certo. Vejam este. Lyndon Johnson, candidato democrata a presidente em 1964, foi o primeiro a pagar anúncios para desmoralizar o rival Barry Goldwater. Uma menina no campo desfolhava pétalas de uma margarida, enquanto as contava uma a uma, até que, chegando ao dez, uma voz masculina começava a reverter a contagem. Na hora do zero, sob um ruído ensurdecedor, via-se na tela uma nuvem de cogumelo, simbolizando a bomba atômica, e a voz de Johnson: “Isto é o que está em jogo – construir um mundo em que todas as crianças de Deus possam viver ou, então, mergulhar nas trevas. Cabe a nós amar uns aos outros ou perecer“. O arremate: “Vote em Lyndon Johnson. O que está em jogo é demais para que você se possa permitir ficar em casa“. Em nenhum momento se mencionava Goldwater. O anúncio saiu apenas uma vez, mas as TVs o repetiram. O falcão republicano foi massacrado.

Wallace, o racista

A mistificação é uma arma do palanque. George Wallace, governador do Alabama, foi um político que encarnou o escopo da segregação racial. É dele a frase que passou para a história: “segregação agora e segregação sempre“. Opunha-se à política de integração racial na Universidade do Alabama, pondo um repto ao então presidente dos Estados Unidos da América, John Fitzgerald Kennedy, por ocasião da aplicação da ordem judicial que obrigava a Universidade a matricular e permitir a assistência às aulas de Vivian Malone e John Hood. Deixou o Partido Democrata e se candidatou, em 1968, pelo partido Independente Americano à presidência dos EUA. Retornou ao Partido Democrata após sua derrota e em 1970 foi eleito novamente governador do Alabama. Em 1972, outra vez nas fileiras do Partido Democrata, foi candidato, mas acabou se afastando da disputa após sofrer uma tentativa de assassinato. Tentou de novo concorrer em 1976, sem êxito.

O farsante

Pois bem, candidato à presidência, usava um palanque alto, cercado por uma proteção de vidros à prova de bala, para evitar atentados. Usava uma armação de óculos para passar a ideia de pessoa compenetrada. Um dia, em um comício, esqueceu que a armação não tinha lente. Colocou o dedo no olho para tirar um cisco. Enfiou o dedo pelo buraco da armação. Nesse momento, um fotógrafo flagrou a mentira. Dia seguinte, a manchete denunciava: “Eis o grande mentiroso”. O impacto negativo tirou-o do pleito. Começou aí o despenhadeiro político.

Rádio e TV, a grande expectativa

Enquanto as projeções e os cenários se multiplicam, incendiando as conversas, uma grande interrogação emerge: qual será o papel do rádio e da TV na influência do eleitor? Bolsonaro terá parcos oito segundos, contra mais de cinco minutos de Alckmin. O capitão segurará sua alta intenção de voto, ao ser massacrado pela mídia eleitoral do tucano, que terá, ainda, grande planilha de spots publicitários ao longo do dia? Já o PT, mesmo com um número bem menor de inserções, não ficará ao léu, eis que disporá de razoável carga comunicativa na programação eleitoral. Aqueles que devem sofrer com o pouco tempo, entre os chamados candidatos com mais força eleitoral, são Ciro Gomes e Marina Silva.

As redes sociais

Outra pergunta recorrente: as redes sociais influenciarão o eleitor? Este consultor tem recorrido à mesma resposta: animam a militância, mobilizam os exércitos dos candidatos, mas não chegam a puxar contingentes eleitorais. O que se percebe é um tiroteio recíproco entre guerreiros de um lado e de outro, com baleados dos dois lados. Puxar eleitores na esteira das ondas expressivas das redes, isso não ocorre. Não se deve creditar muito poder às redes sociais. Já os spots publicitários terão maior influência junto ao eleitorado que os programas eleitorais cheios, a serem veiculados no princípio da tarde e às 20h30.

Por que Alckmin não decola?

Geraldo Alckmin disporá do maior tempo na programação eleitoral, fechou o maior arco de alianças partidárias, conta com imensa estrutura dos partidos que o apóiam em todos os Estados da Federação. Sendo assim, por que não decola? É cedo para responder à questão. Primeiro, a campanha de comunicação só terá início em 29 de agosto. Nos 10 primeiros dias, saberemos se a força da comunicação televisiva e radiofônica será decisiva.

Social-democracia repartida

Mas urge reconhecer que os tucanos padecem de uma crise de identidade. O espaço da social-democracia foi repartido por entes que passaram a usar seus escopos – o Estado do bem-estar social, liberalismo econômico, Estado de tamanho adequado para cumprir suas funções, com capacidade de intervir na economia, quando necessário, etc. O que distingue, hoje, os tucanos de outros quadros políticos?

Quatro mandatos

A respeito de Alckmin, mais uma pergunta: depois de governar anos a fio – quatro mandatos – por que Geraldo está perdendo para Bolsonaro em São Paulo? Lembrando: O primeiro governo foi entre 2001 e 2006; Alckmin era vice de Mário Covas e, com a morte do titular, em 2001, assumiu o cargo, no qual em 2002 se elegeu ficando no governo até 2006. O segundo momento se dá entre 2011 até 2014, quando ele foi eleito em 2010. Reeleito em 2014 com 57% dos votos para um quarto mandato de 2015 até 2018, quando renuncia. Alckmin está ainda coberto pela mancha do desgaste de material.

Quem não crê em nada

Quando um homem vem me dizer que não crê em nada e que a religião é uma quimera, faz com isso uma confidência muito ruim, pois devo ter, sem dúvida, ciúme de uma terrível vantagem que ele tem sobre mim. Como? Ele pode corromper minha mulher e minha filha sem remorsos, enquanto eu seria impedido de fazer o mesmo por medo do inferno! A disputa é desigual. Que ele não creia em nada, com isso posso consentir, mas que vá viver em outro país, com aqueles que se lhe parecem, ou, pelo menos, que se esconda, e que não venha insultar minha credulidade“. Montesquieu em seus Escritos.