Porandubas Políticas 628

O selo, coronel, o selo

Nos Inquéritos Policiais Militares (IPM), abertos nos anos de chumbo, Jânio é chamado ao Rio para depor em um deles. Mas o ex-presidente não vai. E diz por que não vai:

– Só falo no meu chão, na minha jurisdição.

O coronel vai a São Paulo ouvi-lo. À máquina, o sargento escrevente e, ao lado de Jânio, seu amigo Vicente Almeida. O coronel começa:

– Dr. Jânio Quadros, em que dia e ano o senhor nasceu?

Jânio arregala os olhos, entorta-os e volta-se para o lado:

– Vicente, meu bem, será que ele não sabe? Não pode ser.

O coronel não entende:

– Não sabe o quê?

– Que perguntas têm que ser por escrito. Está na lei, coronel. Na lei.

O depoimento prossegue por escrito. O coronel tira um maço de cigarros, oferece. Jânio pega-o na ponta dos dedos, passa de uma mão à outra:

– Vicente, meu bem, que coisa. O que é isto? Que estranho, Vicente! Nunca havia visto.

O coronel irrita-se:

– Por que o espanto, Dr. Jânio? É um cigarro americano Marlboro.

 Sim, sim, meu caro coronel, sei-o, sei-o muito bem. Mas, onde está o selo? O selo, coronel? O selo?

O IPM acabou.

(Historinha contada por Jô Soares).

 

O capitão não se contém

Os últimos dias foram férteis na produção de frases polêmicas por parte do capitão-presidente. As expressões presidenciais funcionam como fios desencapados de curtos-circuitos. “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”. “A economia vai às mil maravilhas”. Os governadores “Paraíba” do Nordeste governam com ideologia, Miriam Leitão não foi torturada, não existe devastação da mata amazônica, o Brasil é exemplo de conservação ambiental e, pasmem, o general Luiz Rocha Paiva, integrante da Comissão de Anistia, é “melancia”. Verde por fora e vermelho por dentro. O presidente descobriu que ele é um “defensor da guerrilha do Araguaia”. Bala para todos os lados.

 

Repercussão

As declarações bombásticas de Bolsonaro soaram mal em alguns setores. Os ambientalistas, a partir do diretor do INPE, Ricardo Magnus Osório Galvão, reagiram de maneira contundente à observação do capitão de que ele (Galvão) está agindo “a serviço de alguma ONG”. O diretor, que garantiu não renunciar ao cargo, qualificou a fala do presidente de “conversa de botequim”.

 

Nordeste reage

Já os governadores nordestinos reagiram em carta aberta contra o que viram como discriminação ao Nordeste. As redes sociais se encheram de indignação. Ontem, na Bahia, ao inaugurar o aeroporto de Vitória da Conquista, o presidente tentou atenuar o atrito: “Eu amo o Nordeste. A minha filha tem em suas veias sangue de cabra da peste. Cabra da peste de Crateús, no nosso Estado mais lá para cima, o nosso Ceará. Não estou em Vitória da Conquista, não estou na Bahia, e nem no Nordeste. Estou no Brasil”.

 

O general e a jornalista

Carimbar o nome de um general, mesmo aposentado, de “melancia”, convenhamos, deve ter tido forte repercussão negativa no Exército. Os jornalistas, solidários a Miriam Leitão, jorraram palavras duras sobre o capitão.

 

Vai aguentar?

A continuarem as diatribes linguísticas contra grupos, setores, políticos e governantes, o capitão-presidente aguentará o tranco de reações em cadeia? É uma pergunta que suscita dúvidas. Os bolsonarianos mais radicais devem apreciar o palavrório sem limites éticos do presidente. Querem, aliás, que ele endureça o discurso. Mas amplos contingentes que nele votaram, mais para evitar a volta do PT e menos por identificação ideológica, já iniciaram um ensaio de retirada de apoio. Pesquisas mostram que o prestígio do presidente se esfacela. Ele cai no ranking da aprovação positiva. Vai ser difícil segurar uma onda continuista caso o mandatário-mor cumpra sua trajetória sem conter a língua.

 

Pontos de atrito

Quem acompanha a cena político-institucional ainda não conseguiu entender os posicionamentos e as decisões extravagantes de Bolsonaro. Como é possível abrir uma polêmica sobre a nomeação de seu filho (“Lógico que é filho meu. Pretendo beneficiar o filho meu sim. Pretendo, tá certo? Se eu puder dar um filé mignon para o meu filho eu dou“) Eduardo Bolsonaro, no momento em que o Congresso debate a controvertida reforma da Previdência? A abertura de pontos de conflito certamente indispõe a figura presidencial junto a parlamentares. “Ah, mas ele diz o que pensa, é sincero”, respondem bolsonaristas. Ora, mas há uma liturgia do poder que recomenda cautela, bom senso, uso adequado de conceitos e expressões, principalmente em ciclos de intenso debate político.

 

Eduardo embaixador

O nome do deputado deverá ser aprovado no Senado, onde a maioria governista é mais expressiva. Os senadores tendem a aceitar nomes de indicados pelo Executivo para assumir cargos. Principalmente em início de governo, quando a caneta presidencial está cheia de tinta. Mas as dúvidas não serão dissipadas: como agirá o embaixador filho do presidente? Que características terá sua missão? Como será avaliado pelo corpo do Itamaraty, pela mídia e pelos políticos?

 

Julho em contração I

Julho tem sido um mês de sístoles. Sístole e diástole são dois estágios do ciclo cardíaco nas pessoas. Por sístole, entende-se a fase de contração do coração, em que o sangue é bombeado para os vasos sanguíneos, já a diástole é a fase de relaxamento, fazendo com que o sangue entre no coração. O general Golbery do Couto e Silva, no ano de 1980, usou os dois conceitos para tratar do país sob a visão da política. Pregava que os militares, após o ciclo da contração, se retirariam da política de forma organizada e tutelando a transição democrática. Viria a diástole.

 

Julho em contração II

O Brasil atravessa julho sob muita sístole, ao contrário do tempo de descontração, esperado no sétimo mês do ano. As tensões envolvem os três Poderes, órgãos como Ministério Público, Receita Federal, Coaf, OAB, entre outros. O Executivo e a esfera política atuam sob alta tensão. O presidente conserva “certo desprezo” sobre o presidencialismo de coalizão. Não aceita as demandas de parlamentares. (Bolsonaro nesse aspecto se parece com a ex-presidente Dilma).

 

Contra a Lava Jato?

Há tensão entre o STF e o Ministério Público por causa de decisão do ministro Dias Toffoli de condicionar todas as investigações à autorização judicial. Elas partem de informações principalmente do Coaf e da Receita, que apuram movimentações suspeitas. Para o MP, pode ser um golpe de morte contra a Lava Jato. Há tensão entre o Executivo, o Legislativo e o MP por causa da Lava Jato. Políticos querem minar a operação, o MP defende sua plena continuidade e o Executivo tenta manter acesa a chama com apoio ao ministro Sérgio Moro.

 

Aécio fora do PSDB

O senador Aécio Neves é a bola da vez no jogo do PSDB. O prefeito Bruno Covas quer vê-lo fora do partido. A jogada de Covas tem pano de fundo eleitoral. Acha que a expulsão do mineiro ajudará a construir seu discurso de moral no pleito de 2020. O governador João Doria, geralmente muito falante, cala-se nessa questão. FHC não defende a saída de Aécio. O novo presidente do PSDB, o ex-deputado e ex-ministro Bruno Araújo, analisa as tendências. Os senadores tucanos estão do lado de Aécio. O jogo, por enquanto, dá empate.

 

PSL rachado

O PSL, partido do presidente, é uma casa de marimbondos. Ferroada por todos os lados. Até outubro, é provável a migração de um grupo de parlamentares para outros partidos. A não ser que o próprio presidente Bolsonaro entre em campo para intermediar interesses e segurar sua principal base. Em São Paulo, por exemplo, com a eventual saída do deputado Eduardo Bolsonaro, vai haver disputa para a presidência do partido.

 

Maquiavel

“Um príncipe precisa usar bem a natureza do animal; deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos“. Conselho do velho Maquiavel, que arremata: “não é necessário ter todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las“.

 

Gocil e Prosegur

Domingo, Lauro Jardim, em sua coluna em O Globo, noticiou a negociação para a compra da Gocil, de Washington Cinel, pela Prosegur, uma grande companhia espanhola do setor de segurança privada. Cinel garante que não existe essa negociação. Não é verdade a informação veiculada.

 

Dados do desmatamento

A polêmica sobre desmatamento não está encerrada. Dados extraídos dos mapeamentos de satélites vão mostrar a realidade. E se forem um contundente desmentido à palavra do presidente quando garante não haver o descalabro? Bolsonaro tem três alternativas: a) divulgar a verdade com foto tirada pelo satélite; b) manipular as informações e c) censurar os dados. Nessa direção, a emenda será pior que o soneto.

 

E os generais, hein?

Como estão os ânimos dos generais no entorno do presidente? Ligeiras impressões: o general Heleno parece mais retraído, o mesmo podendo se dizer do vice-presidente, general Mourão, que de muito falante, está de boca quase fechada. O general Villas Bôas, assessor do general Heleno, também não tem aparecido na mídia. O general Rêgo Barros, o porta-voz do governo, passou a ser alvo de críticas dos bolsonaristas radicais, a partir do filho do presidente, o vereador Carlos. O silêncio dos generais diz muita coisa.

 

A viabilidade na política

Carlos Matus, cientista social chileno, em um magistral estudo sobre Estratégias Políticas, demonstra que a viabilidade de um ator na política tem muito a ver com a estratégia e seus princípios fundamentais. Eis alguns princípios estratégicos: a) Avaliar a situação; b) Adequar a relação recurso/objetivo; c) Concentrar-se no foco; d) Planejar rodeios táticos e explorar a fraqueza do adversário; e) Economizar recursos; f) Escolher a trajetória de menor expectativa; g) Multiplicar os efeitos das decisões; h) Relacionar estratégias; i) Escolher diversas possibilidades; j) Evitar o pior; k) Não enfrentar o adversário quando ele estiver esperando; l) Não repetir, de imediato, uma operação fracassada; m) Não confundir “reduzir a incerteza” com “preferir a certeza”; n) Não se distrair com detalhes insignificantes; o) Minimizar a capacidade de retaliação do adversário.