Porandubas Políticas 629

Abro a coluna com Tancredo Neves.

 

São Geraldo

Geraldo Rezende, editor político de O Diário, sábio e santo, conversava com Tancredo no final da campanha para o governo de Minas, em 1960, contra Magalhães Pinto:

– Tancredo, você precisa ter fé. Dê uma passada no Santuário de São Geraldo, em Curvelo, que São Geraldo não esquece seus devotos.

Tancredo foi lá. Perdeu as eleições para Magalhães. Telegrafou a Geraldo:

– Geraldo, São Geraldo esquece seus devotos.

Meses depois, Jânio renuncia, assume Jango. Tancredo é primeiro-ministro. Geraldo telegrafa a Tancredo:

Tancredo. São Geraldo não esquece seus devotos.

 

Do topo ao rés do chão

A política é uma gangorra. Um dia, o protagonista está no pico da montanha. Noutro, empurrado pelas circunstâncias, desce ao rés do chão. A imagem vai para Sérgio Moro, o juiz que desfraldava a bandeira da moralidade e da Justiça. Deixou o Judiciário pela política. Sim, porque o cargo de ministro da Segurança Pública e da Justiça insere-se na seara da política. Pode-se, até, dizer: ele não bateu ainda no sopé da montanha. É razoável. Mas perdeu prestígio, sim, com a revelação de conversas entre ele e o procurador Deltan Dallagnol captadas por hackers e reveladas pelo site The Intercept Brasil.

 

Bernardes I

Lições do Padre Bernardes

“Perante Filipe, Rei da Macedônia, requeria Machetas sua justiça. O Rei dormitou e depois sentenciou pouco conforme a razão. “Apelo“, clamou Machetas. Indignado, o Rei perguntou: “para quem“? Respondeu de pronto: “De El-Rei dormindo para El-Rei acordado“.

 

Moro é alvo I

Sérgio Moro não tem a simpatia do corpo parlamentar, que enxerga nele o justiceiro da classe política. E agora, com a revelação de que teria havido uma interlocução aética entre operadores do Direito, há muitos que desejam vê-lo na cadeira de réu. Não é improvável que se instale uma CPI para investigar o caso das interlocuções gravadas.

 

Moro é alvo II

Agora, sob a pressão para se ir a fundo na questão dos hackers que invadiram a rede Telegram de centenas de autoridades e, ao que se diz, também de jornalistas. Para piorar sua situação, Moro, pelo que se leu, teve acesso às conversas e prometeu para alguns interlocutores sua destruição. Como uma figura do Judiciário pode prometer destruir provas quando se está investigando o assunto? Ficou no centro do tiroteio.

 

Pressa

O ministro pode ter sido atropelado pela pressa. No afã de acalmar os interlocutores, disse que os diálogos seriam destruídos. Uma insanidade. Foi desmentido pela própria PF, que faz a investigação dos hackers. A balbúrdia está no ar. Moro desce do alto patamar onde se encontrava. Ao presidente Jair ficou a defesa do ministro, ao dizer que ele não faz nada fora da lei.

 

No íntimo…

No íntimo, porém, Bolsonaro deve estar confortado. Afinal, o juiz aparece como eventual candidato à presidência em 2022. Mesmo estando longe, poderia ser embalado pelo eventual sucesso em seu pacote de segurança, a ser votado pelo Congresso. Hoje, já não se garante um trâmite rápido e com alta possibilidade de ser aprovado. Se tudo certo, o que ele ainda pode almejar é um cargo de ministro no STF.

 

Porém…

Mas há um porém. O presidente tem dito que falta no Supremo um ministro evangélico. Como se na Corte o importante não fosse sabedoria e o preparo, mas a vinculação no cordão religioso. Daí a promessa de nomear alguém “terrivelmente evangélico”, expressão estranha para designar um ministro de um credo religioso. Afinal, o advérbio “terrivelmente” está mais próximo ao fogo do inferno do que à temperatura celestial. A vaga a se abrir é a do decano Celso de Mello, que deverá se aposentar em novembro do próximo ano. Além dele, outra vaga será aberta mais adiante, com a aposentadoria do ministro Marco Aurélio.

 

Bernardes II

Andava Dom João II, de Portugal, espairecendo pelas ribeiras do Tejo quando disse aos ministros de Justiça que o acompanhavam a cavalo: “corram, corram“. Respondeu um em nome de todos: “Nós não corremos, a não ser atrás de ladrões“. Ao que o Rei gracejou: “então correi atrás uns dos outros”.

 

Surpreendente: tom eleitoral

Para quem dizia não querer reeleição, surpreende o tom eleitoral usado pelo presidente Jair passados apenas sete meses de governo. O capitão gosta mesmo de palanque. Nesse capítulo, parece com Lula, que corria o país agitando as galeras com suas imagens populares e ditos marcantes. Bolsonaro fala para suas bases radicais, contingentes que habitam o território da extrema direita.

 

Expressão radical

Enquanto o discurso de preservação ambiental forma uma ampla corrente no planeta, o presidente Jair bota lenha da floresta na fogueira. Não vê desmatamento, apesar das fotos reais dos satélites. Atira com palavras provocativas. “Se o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, quiser saber como meu seu pai morreu, eu conto”. Ele desapareceu nos tempos de chumbo. “Não há indícios de assassinato de líder indígena no Amapá”. É possível até que não tenha sido um crime. Mas a FUNAI, órgão do governo, admitiu. A PF está apurando. “Não há fome no país”. Os jornais abrem imensos espaços para mostrar os pratos vazios ou com um punhado de farinha.

 

Onde vamos parar?

O capitão não se contém. Quando lhe asseveram que a Comissão da Verdade atestou a morte de prisioneiros pelos grilhões da ditadura, retruca: “é uma balela. Você acredita em Comissão da Verdade”? Documentos desmentem versão de Bolsonaro sobre a morte de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB. O atestado de óbito dado por um órgão do Ministério dos Direitos Humanos, semana passada, afirma que a morte do estudante foi “causada pelo Estado brasileiro”. Mas o presidente não aceita isso. Suspende audiência com o chanceler da França e vai cortar o cabelo. Desrespeito. O ministro do Supremo Marco Aurélio não se contém: “tempos estranhos. Onde vamos parar”? O advogado Miguel Reale Junior levanta a voz: “é caso de interdição”.

 

Santa Cruz vai ao STF

Pois bem, o presidente da OAB não deixou por menos. Vai interpelar Bolsonaro no STF sobre as declarações sobre a morte de seu pai em 1974. Já constituiu advogado, César Brito. O presidente precisa impor limites às suas expressões.

 

Bernardes III

Perguntou uma pessoa a Aristóteles por que razão as coisas formosas se amavam? Respondeu: “essa pergunta é de cego“.

 

Corrida ao centro

O posicionamento cada vez mais radical do presidente Bolsonaro começa a gerar efeitos. Alimenta e realinha suas bases; começa a criar desconfiança em parcela do corpo político; inicia um processo de alargamento do perfil de outros protagonistas sinalizando seu ingresso na arena presidencial de 2022. Entre estes, o mais forte é o governador de São Paulo, João Doria. É o maior beneficiado pela expressão radical e cheia de veneno do presidente. Doria está sabendo se conduzir muito bem nesse momento.

 

Estilo João Doria I

O governador de São Paulo tem um estilo incomparável. A começar pela jornada de trabalho. Não dorme mais do que três horas. Faz exercícios. Chega cedinho ao Palácio, de onde sai, às vezes, por volta de meia noite. É uma pessoa onipresente. No mesmo dia, aparece numa distante cidade do interior do Estado, numa grande cidade da Grande São Paulo ou dirigindo eventos no Palácio dos Bandeirantes.

 

Estilo João Doria II

Em seu périplo cotidiano, lança programas em diversas frentes, faz pronunciamentos, apresenta dados de redução da violência no Estado, recebe caravanas de empresários brasileiros e estrangeiros, cumprimenta militares por suas ações, mostra o volume de investimentos em diversas áreas, enfim, parecendo uma locomotiva puxando os carros do trem paulista. E mais: coloca todo esse menu à disposição de uma ampla teia de formadores de opinião. Trabalha com transparência. Sob forte apoio das classes médias.

 

São Paulo, o maior colégio

São Paulo tem cerca de 35 milhões de eleitores. Um candidato de São Paulo, com uma boa aprovação do eleitorado, já sai com fortes passos na frente. Afinal, são mais de 23% do eleitorado brasileiro. 2022 está muito longe. Mas a continuar o clima de polarização entre esquerda e direita, como se apresenta hoje, haverá uma grande tendência de migração de eleitores em direção ao centro do arco ideológico. O apartheid do “nós e eles” que o PT criou lá atrás reaparece hoje de maneira invertida. São os bolsonarianos que pregam a divisão.

 

Bernardes IV

São Francisco de Borja, antes de se alistar na Companhia de Jesus, foi duque de Gândia. Uma vez levou um porco às costas para a cozinha. Alguns fizeram reparos. Ao que ele disse: “será que é muito um porco levar outro?“.

 

Guedes satisfeito

Quem conversa com o ministro da Economia, Paulo Guedes, vai encontrar uma pessoa mais flexível e até satisfeita. Tomou consciência de que é difícil passar algum projeto de reforma no Congresso sem o dedo do parlamentar. Principalmente nesse ciclo em que o Parlamento demonstra grande vontade em resgatar suas funções e manter certa independência do Poder Executivo. Assim, a reforma da Previdência, sob a ótica de Guedes, está de bom tamanho. Claro, não pode ser mais desidratada.

 

Marinho

Quem está se saindo melhor que o figurino é o Secretário da Previdência e Emprego, Rogério Marinho. Ex-deputado pelo PSDB do RN, foi o relator da reforma trabalhista. Respeitado pelos pares, educado, fino no trato com interlocutores de quaisquer esferas, Rogério tem tido um papel preponderante na articulação dos programas sob sua coordenação. Tem sido convidado para prosseguir sua carreira política, após sua missão no governo, em outras plagas. Mas conserva o RN em seu coração.

 

Bernardes V

Estava Santo Efrém em uma pousada cozinhando suas pobres viandas. Logo uma mulher, curiosa, meteu os olhos pela janelinha que ficava fronteira. E que perguntou sem graça: “falta alguma coisa“? Ao que responde o Santo: “três ladrilhos e um pouco de lama para entaipar esta janela“.